Shell Dwellers - uma opção para aquários menores!
Neolamprologus multifasciatus
Vejo muitas pessoas perguntarem sobre a possibilidade de manter ciclídeos africanos em aquários pequenos e a resposta para essa pergunta é quase sempre respondida de maneira negativa. Compreendo que é realmente a resposta mais sensata, visto que são poucas as pessoas dispostas a montar um aquário com apenas um casal de peixes. Normalmente, ainda mais para os iniciantes, a vontade é colocar dezenas de espécies coloridas que muitas vezes são completamente incompatíveis, o resultado é quase sempre o mesmo, a príncipio todos vivem em perfeita harmonia, algum tempo depois começam a aparecer os primeiros “incidentes”, animais começam a disputar territórios, fêmeas ou seja lá o que for e pouco tempo depois, começam a aparecer as primeiras mortes.
Para aqueles aquaristas que querem montar um aqua de CA’s, mas não dispõe de espaço (ou por algum outro motivo não podem montar um aquário maior), existe uma alternativa: um pequeno grupo de peixes do Lago Tanganyika que podem ser mantidos em aquários de pequeno volume, cerca de 40 a 50 lts já é o suficiente para mantermos com segurança um casal de alguma dessas espécies; esse pequeno e maravilhoso grupo, ignorado por muitos, são conhecidos por “shell dwellers” (ou conchícolas ).
São peixes que ao longo da evolução, se adaptaram a utilizar conchas vazias de caracóis como moradia; utilizam essas como local para reprodução, para desova, crescimento, como refúgio contra predadores, enfim, todas as fases de suas vidas.
Cada espécie tem uma maneira particular de interagir com as conchas; há espécies que enterram várias delas no seu território e deixam apenas 1 ou 2 a mostra (há casos onde os casais podem dividir uma única concha), as outras à medida que vão se tornando necessárias vão sendo desenterradas; outras espécies não chegam a enterrar, mas fazem um enorme buraco na areia, pra onde empurram todas as conchas que tem ao seu dispor, fazendo desta maneira uma enorme cratera cheia de conchas no fundo.
No Lago Tanganyika, esse grupo de peixes utiliza as conchas vazias de uma espécie de caracol, o Neothauma tanganicense, mas em cativeiro se adaptam bem a qualquer outro tipo de concha vazia (pode ser de caracol terrestre, marinho, as famosas ampularias ou até mesmo de escargot). Acho importante observar aqui, que as conchas devem caber com segurança seus ocupantes, conchas muito pequenas ou apertadas devem ser evitadas, pois os peixes podem entrar e acabar ficando presos no seu interior.
Em determinados locais do lago, encontram-se áreas imensas, quilômetros cobertos por conchas de caracóis. Nessa área, habitada por dezenas de espécies; as conchas são defendidas ferozmente por seus habitantes e verdadeiras guerras podem ser travadas por essas moradias, mesmo assim, não são raros os casos de roubos de conchas entre os grupos, fato que pode ocorrer até mesmo dentro de um aquário quando no caso há mais de uma colônia ou mais de uma espécie.
Um aquário para manter um casal de Shell dweller, como dito no início, não necessita ser muito grande, aquários com 50cm ou mais de frente normalmente já são o suficiente para manter um casal da maioria das espécies, mas claro que aqui também vale aquela regrinha de quanto maior melhor. O mais interessante, ao se manter um aquário monoespécie é ter a chance de observar o comportamento reprodutivo da espécie, rituais de corte, desovas, eclosão dos ovos, observar os filhotes começando a se aventurar fora do território dos pais.
Obrigatoriamente o substrato deve ser de baixa granulometria, para permitir que os habitantes divirtam-se com seus hábitos (são escavadores). Aragonita SS é uma das melhores opções; a calcita e dolomita também podem ser utilizadas com sucesso, há quem utilize areia de praia (tratada) ou mesmo areia de filtro de piscina, e não podemos esquecer também dos substratos industrializados específicos para aquários de CA’s, outra boa opção para quem quer gastar um pouco mais.
A filtragem deve ser bem planejada, pois são animais que sentem bastante os compostos nitrogenados e qualquer aumento em um desses parâmetros pode ser fatal. A química da água do aquário para manutenção desse grupo deve ser o mais próxima da encontrada no seu local de origem: pH entre 8,5 a 9,2; KH entre 16 a 19 , GH entre 11 a 17 e temperatura em torno de 26°C. Para monitoração desses parâmetros é aconselhável a utilização de testes específicos, ajuda (e muito) a resolver um tanto de problemas que dificilmente resolveríamos sem eles. Além disso, um bom termostato se faz necessário em regiões onde ocorram grandes oscilações térmicas diárias.
A decoração de um aquário de shell dwellers, consiste basicamente de conchas, rochas e algumas plantas se assim desejarem, são carnívoros, portanto não atacaram as plantas. Talvez possa ser um pouco complicado manter as plantas devidamente enraizadas no substrato, devido aos hábitos dos peixes, além disso, não é qualquer planta que suporta ser mantida em águas tão alcalinas e duras e ainda normalmente sob baixa iluminação. Sagittaria, Anubias, Microsorum, elódeas são plantas que normalmente se dão bem nessas condições. A iluminação para esses aquários não necessita ser muito forte, algo em torno de 0,5W/L já está de bom tamanho.
Telmatochromis brichardi
Todas as espécies conhecidas são carnívoras, podendo ou não ser predadoras; plâncton, microcrustáceos, moluscos, pequenos vermes e alevinos de outras espécies podem fazer parte do cardápio desse grupo. Aceitam bem alimentos industrializados, mas acho importante fornecer ocasionalmente algum tipo de alimento vivo (enquitréias, artêmias, tenébrios, besouro do amendoim...), gosto de fornecer também spirulina uma vez na semana, acho que quanto mais diversificado a alimentação (de boa qualidade), melhor.
Hugo Antunes/Huguera - 2007
