O Colecionador de Opérculos
A crônica de uma insólita realidade
Ele sempre fora criado numa lógica televisiva. Nunca questionava, nunca indagava. Apenas assistia e se não gostava virava as costas ou se revoltava sem argumento aparente. Alienava-se e era feliz.
Certo dia, pôs na cabeça que queria ter um animal de estimação. Adorava a sensação de controle, e nada melhor que um animal de estimação para exercê-la.
Um cão ou um gato exigiria muita responsabilidade, coisa que sabia, intimamente, não possuir. Queria algo que pudesse dominar, como um pequeno mundo só dele, onde seria o senhor, e tudo seria bem simples.
- Um aquário!!! – exclamou com satisfação. Pequeno, simples, bonito de se ver e que não exigiria mais do que alguns instantes de atenção, exatamente como uma televisão.
Lá se foi em busca de seu intento. Sabia o endereço de duas ou três pet-shops. Queria algo barato, mas que impressionasse a todos. Já havia premeditado como ignoraria qualquer tentativa do vendedor de “empurrar” algum produto caro e inútil.
Entrou na primeira loja. Poucos minutos se passaram até sua saída de mãos vazias.
Como ele já previra, o vendedor tentara enganá-lo. Falara em ciclagem, pH, ciclo do nitrogênio, superpopulação e nada explicara de todo. Só indicava mais e mais produtos, testes, filtros, que dizia serem necessários. Ora, ele só queria montar uma caixinha de vidro com água e peixes coloridos, nada mais.
Dirigiu-se a segunda loja.
Nessa sim, fora atendido decentemente. Nenhum argumento do atendente, apenas ia trazendo o que ele via e gostava na loja. Algumas explicações simples sobre como colocar a filtragem e nada mais.
Agora sim, não vinha mais de mãos abanando! Debaixo de seu braço esquerdo, um pequeno aquário, cerca de 20L ou menos, e dentro dele uma bomba de ar simples, um pouco de cascalho azul (adorava essa cor), uma grande imitação plástica de uma planta aquática e placas negras de um filtro biológico; no seu braço direito, dez peixinhos dourados e um pote de ração.
Imponentemente, como um troféu, a pequena caixinha de vidro foi colocada num móvel de seu quarto, onde ele pudesse acompanhá-la de perto.
Começou a montar o filtro biológico (num lapso anormal, pareceu desconfiar da eficácia do filtro, entretanto, relembrou-se da confiança com que o vendedor indicara o aparelho). Continuou, com extremo cuidado.
Após isso, abriu o saquinho e despejou o cascalho azul pelo aquário. Notou um pouco de pó entre as pedras. “Normal” – pensou.
Pegou o balde. Foi até o tanque, encheu-o de água e dirigiu-se à sua caixinha de vidro. Despejava a água do balde vigorosamente, afoito por ter a tarefa completa.
Súbito, lembrou-se da planta de plástico. Esquecera de colocá-la. Tomou-a entre os dedos e pressionou as raízes de poliuretano amarelo contra o cascalho azul, a fim de fixar o enfeite.
Cheio de água, com a bombinha ligada, o pequeno aquário tinha um ar lúgubre, com pó flutuando rente à superfície da água e o som monótono do aerador. Achou bonito, para seu primeiro aquário.
Chegara o grande momento: soltar os peixes.
Enquanto abria o saco plástico, ia imaginando a grande sorte que seus peixes possuíam, já que foram tirados daquela loja, sem cuidados, para viverem agora naquele lindo aquário com cascalho azul, bomba e até uma planta de plástico para se esconderem!
Aberto, virou o saquinho no aquário, soltando as dez pequenas criaturinhas.
Ali estava seu novo aquário!!!
Seus peixes precisavam partilhar da alegria dele.
Pegou o pote de ração e, sem hesitar, despejou cerca da metade de seu conteúdo no aquário. Assistia, maravilhado, a ração espalhada por todo o aquário, com seus peixes comendo à vontade, comemorando sua nova casa
- Pois não?
- Oi, eu comprei dez peixes daqueles ali semana passada, mas morreram todos. Sabe o que aconteceu?
- Ah, você levou daqueles ali? São meio chatinhos mesmo, morrem fácil. Tenta com algum mais resistente, que daí duram mais. Ali naquele aquário têm alguns.
- Deixa eu ver... Gostei desse aqui, “Auratus” é isso?
- Isso.
- Legal, me vê uns seis desse...
O que você acabou de ler é apenas um relato fictício. Qualquer semelhança com a realidade aquarística é mera coincidência.
Bruno Galhardi
2004
Ezstyle -Bruno
Galhardi 2003 - 2006

