Entrevista com Kullander - Biólogo e estudioso dos Ciclídeos
Pergunta:- Conte-nos um pouco sobre você.
Resposta:- Bem, eu sou formado pela Universidade de Umea com título de PhD pela Universidade de Estocolmo em 1983. Atualmente sou curador e pesquisador da seção de ictiologia do Museu de História Natural da Suécia, em Estocolmo.
Pergunta:- Quais as espécies de peixe que você tem mais estudado ?
Resposta:- Olha, eu optei por dedicar-me aos ciclídeos da América do Sul, pois é um campo com muito trabalho por fazer. A título de comparação, na Suécia, por exemplo, existem apenas 52 espécies de peixes nas águas interiores, enquanto que na América do Sul são mais de 5000, das quais mais de 400 são ciclídeos. Considerando a região Neotropical são mais de 500 espécies.
Pergunta:- Nessas 500 encontram-se os nossos famosos tucunarés ?
Resposta:- Sim, com 14 espécies identificadas.
Pergunta:- Todas ja tem nome científico ?
Resposta:- Não, apenas estão denominadas as seguintes : Cichla ocellaris, Cichla temensis, Cichla monoculus, Cichla orinocensis e Cichla intermedia.
Pergunta:-Há uma razão para tal ?
Resposta:- Sim, hoje há muito poucos pesquisadores para estudar os peixes de forma sistemática.
Pergunta:- Quais as regiões em que aparece o Cichla ocellaris, conhecido como tucunaré butterfly (borboleta) ?
Resposta:- Segundo os nossos estudos, ele aparece nas seguintes regiões naturais : Suriname, Guianas e Rio Branco. Esse peixe que foi introduzido na Flórida, Estados Unidos, atinge um tamanho máximo que varia de 30 a 40cm.
Pergunta:- Quando eu estive recentemente pescando nos canais de Miami, os pescadores locais me informaram haver exemplares maiores. Qual sua opinião ?
Resposta:- Olha, quando você muda o peixe de suas condições naturais e originais, é necessário iniciar toda uma nova pesquisa. Os canais tem uma condição bastante específica e totalmente artificial. Talvez, devido a fatura de alimentos, condições da água e outros fatores, os peixes podem ficar um pouco maiores. Talvez também tenham sido introduzidas outras espécies originando a confusão. Em todo caso, você sabe, onde há pescadores os peixes sempre aumentam de tamanho...
Pergunta:- E onde encontramos as outras espécies de peixe identificadas ?
Resposta:- Cichla temensis nas águas escuras do rios Negro e Uatumã; Cichla monoculus nas águas brancas dos rios Solimões e Amazonas no Brasil e Peru; Chicla orinocensis nos rios Negro e Orinoco; Chicla intermedia no rio Orinoco na Venezuela.
Pergunta:- O Cichla temensis é a espécie que tem os maiores exemplares, sendo um dos troféus mais cobiçados pelos pescadores. Fale mais um pouco sobre esse verdadeiro campeão.
Resposta:- Essa espécie de peixe gosta das águas escuras dos rios Negro e Uatumã que têm um pH bastante ácido. O próprio comportamento do rio Negro, como escrito pelo pesquisador Michael Golding, apresenta características bastante específicas. Muito interessante é a coloração dos peixes. Os machos, por exemplo, quando em fase de procriação (com protuberância na testa) tendem a perder as quatro linhas de pintas brancas do corpo. Enquanto que nos demais períodos elas aparecem reforçadas. Quanto as fêmeas, elas sempre têm essas pintas. Não há informações mais detalhadas se elas variam de intensidade conforme o período do ano.
Pergunta:- Isso acontece também nas outras espécies ?
Resposta:- Normalmente o desenvolvimento dos alevinos de tucunaré ocorre da seguinte forma: quando nascem têm três pintas pretas ao longo do corpo, que após algum tempo passam a uma linha contínua. Apenas quando vão se tornando maiores (acima de alguns centímetros) eles começam a formar as barras verticais. Aliás, o pigmento dessas barras varia em função do estado de espírito do peixe. Quando as condições são bastante satisfatórias elas são bastante ressaltadas.
Pergunta:- É verdade. Temos reparado isso nos dois belos exemplares de cinco barras (azuis) que temos num aquário em casa. E as pintas brancas? Todos as têm?
Resposta:- Sim, até atingirem aproximadamente 15cm. No Cichla monoculus elas desaparecem totalmente. Em outras espécies, principalmente a C. temensis, acompanham a vida toda.
Pergunta:- O tucunaré pratica o canibalismo ?
Resposta:- Apenas involuntariamente quando não reconhece a espécie. Uma vez tendo surgido o ocelo na cauda não há mais a prática do canibalismo. Uma boa referência é o artgo escrito pelo Thomas M. Zaret do Departamento de Zoologia da Universidade de Washington, "Inhibition of Cannibalism in Cichla ocellaris and Hypothesis of Predator Mimicry Among South American Fishes".
Pergunta:- Como se apresentam os cardumes ?
Resposta:- Quando os peixes são pequenos, os cardumes são muito grandes. Ao atingirem um tamanho médio, o número passa a ser da ordem de 25 exemplares. Já adultos, em fase de acasalamento ou não, andam sozinhos ou em pares.
Pergunta:- Resposta:, como se comportam os peixes na fase do acasalamento ?
Resposta:- Os tucunarés fazem uma espécie de ninho, utilizando para tal pequenas pedras. Normalmente a fêmea fica tomando conta do local, enquanto que o macho circula em volta para evitar a entrada de intrusos no seu raio de ação.
Pergunta:- Mudando um pouco de assunto, o que você está fazendo aqui no Brasil ?
Resposta:- Estou de passagem para o Paraguai, dentro de um projeto de treinamento para o museu local.
Pergunta:- Por falar em museu, qual a sua opinião sobre o Museu de Zoologia da USP ?
Resposta:- Olha, o Museu de São Paulo é muito bom. Tem uma coleção de peixes excelente, e não fica nada a dever aos museus de outras partes do mundo.
Pergunta:- Você tem feito trabalhos conjuntos com os biólogos dos Estados Unidos ?
Resposta:- Sim, atualmente trabalho com vários pesquisadores do "US Department of the Interior, National Biological Survey", ajudando-os a identificar as espécies de tucunarés que foram introduzidas na Florida. Também tenho feito alguns trabalhos com o biólogo Kirk Winemiller.
Pergunta:- E sobre o seu último trabalho ? Quando fica pronto ?
Resposta:- Bem, estou tentando terminá-lo em conjunto com o Efrem do INPA de Manaus. Já temos o material de 300 dos 400 ciclídeos examinados pronto. É um trabalho que leva mais de dois anos para ficar completo. Talvez publiquemos o trabalho em etapas.
Pergunta:- Um assunto que é levantado de forma preocupante por alguns, diz respeito aos tucunarés hoje existentes no Pantanal. Muitos são da opinião que eles poderiam ocasionar alguma espécie de desequilíbrio no meio ambiente. Qual a sua opinião sobre o assunto ?
Resposta:- No meu modo ver o Cichla existente no Pantanal possivelmente não vai ser um desastre ecológico, pois a fauna lá existente é similar a do Guaporé onde encontra-se naturalmente o tucunaré. Esperemos que seja assim e que não se continue fazendo transposição de peixes entre bacias, evitando assim de forma segura eventuais desequilíbrios ambientais.
Pergunta:- Para finalizar: quais são as "home page" do Museu de Estocolmo recomendadas para os internautas da pesca ?
Resposta:- http://www.nrm.se: "home page" do museu; http://www.nrm.se/ve/pisces/fishpage/html: seção de peixes ; http://www.nrm.se/ve/pisces/acara/cichpage.html: guia de ciclídeos.
Pergunta:- Resposta:, muito obrigado pelas suas informações e esperamos poder em breve ver o seu trabalho finalizado.
Resposta:- Obrigado. Continuem me mandando fotos de suas pescarias pois elas ajudam muito a verificar a distribuição do tucunaré no Brasil, e quem sabe, descobrir novas espécies.
NOTA : Dentro da sistematização dos peixes pelos biólogos, os tucunarés paca e açu da região amazônica são ambos classificados como Cichla temensis. De modo a ajudar os sistematas no estudo desses peixes, somos da opinião que deveria ser iniciado um tageamento (marcação) de todos os peixes pescados e soltos dos tipos paca e açu. Além de estimular a soltura do peixe, certamente em alguns anos saberemos um pouco mais sobre este grande campeão que é o tucunaré açu.
Gentilmente cedido por: Fishing World
